Sabor de infância: Mil Folhas

Colaboração de May Shida

“Quando era pequena, lá pelos idos dos anos 1990, meu pai pegou uma tarde de domingo, após ter deixado minha mãe na igreja, para me levar a uma doceria simples, típica de um bairro da zona oeste paulistana, pertinho do sagrado espaço cristão ‘para passar o tempo mais rápido até irmos buscar a sua mãe’. Essa foi a primeira vez que comi o doce que seria o meu preferido para sempre: o mil folhas.

massa folhada e muito creme de baunilha

A receita tradicional: massa folhada e muito creme de baunilha

Nunca tinha experimentado mil folhas. Quando entrava em doceria, corria para os sorvetes, quindins e pudins. Em padaria, minha fixação era por sonho e pães doces. Especialista com sua especialidade, certo?

Naquela tarde, depois de muitos minutos em frente à vitrine de docinhos gelados, ainda em dúvida se comia a conhecida bomba de chocolate, pedi para a moça pegar aquele doce de cobertura branca e de vários andares.

Sobremesa francesa, o mil folhas é um bolo que intercala camadas de massa folhada com camadas de um leve, mas consistente, creme de baunilha [pâtissière]. De uma doçura sem exageros, leva ainda uma cobertura do delicado açúcar de confeiteiro.

Lembro que de uma forma um pouco desajeitada, tentei morder o doce em toda sua altura, sem pegar o papel que o envolvia, sem deixar o creme amarelo e perfumado transbordar e cair no chão. Não deu muito certo.

A crocância da massa folhada limitou minha gula à primeira parte da guloseima; a camiseta ganhou uns bloquinhos do creme, tive que comer uma folha da massa de uma vez só e sujei toda a mão.

O mil folhas da minha infância é da receita original, mas aceita variações para paladares necessitados de mais doçura. Pode ter recheio de chocolate, doce de leite [muito popular na Espanha] e ainda adicionar uma camada de chantilly à versão com creme de baunilha.

Consigo imaginar até hoje a sensação do açúcar de confeiteiro cobrindo meu queixo, lábios, bochechas e nariz. Foi melhor que ganhar um balde de sorvete de nozes e três gibis da Magali. O aroma, sabor e textura são umas das mil sensações infantis que a memória resgata uma vez ou outra.

Quando entro em uma doceria nova ou não sei bem o que pedir, recorro ao doce delicado. É a melhor forma de testar. É um pouquinho arriscado, mas recompensa.

A receita não é das mais fáceis. Para facilitar, compre massa folhada pronta.

Mil Folhas

Durante as pesquisas, encontramos muitas receitas, e escolhemos a que nos pareceu fabulosa. Clique aqui e acesse a receita do Oliver Anquier.

Ah! E tem um pequeno detalhe: mil folhas é nome do 12º álbum do Sonic Youth, a banda mais importante para minha formação musical, cultural e social [e não é exagero]. Os mais aficionados por Sonic Youth dizem que chama Thousand Leaves porque é a sobremesa preferida do Thurston Moore, guitarrista, vocalista e o mais excêntrico dos quatro da banda. Não sei se é verdade. Gosto de pensar que é.

Para completar a perfeição, esse álbum tem a música Sunday. Veja o vídeo.”



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~ por Mari em 02/02/2009.

2 Respostas to “Sabor de infância: Mil Folhas”

  1. May,
    Parabéns pelo texto e por dividir com o Bistrô as suas recordações. Recordar é viver… hehehe
    Obrigada pela colaboração. Posso esperar uma próxima? rsrs
    Bjos

  2. suas CULINARINDIES!
    hehehehehe

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